Inglês é Coisa de Rico

 

O domínio da língua inglesa como marcador de distinção social

Por Cláudia Catherine

Para as elites brasileiras, o domínio da língua inglesa vai além de uma simples habilidade comunicativa, transformando-se em um significativo marcador de distinção social e um elemento crucial na jornada de autotransformação, especialmente para os chamados novos-ricos.

O idioma é não apenas uma ferramenta, mas um ponto de virada e um pilar na construção de uma nova identidade social, adaptada para navegar nos ambientes da alta sociedade.

É sobre isso, dentre outros assuntos interessantíssimos, que o antropólogo Michel Alcoforado fala em seu mais novo livro, Coisa de Rico – A vida dos endinheirados brasileiros.

A obsessão dos novos-ricos pela língua inglesa

Para muitos indivíduos emergentes, a fluência em inglês é uma verdadeira obsessão e representa um dos marcos iniciais mais importantes em sua ascensão social. Michel, o autor, descreve uma batalha para conquistar o domínio da língua, na qual tempo e recursos são empregados de forma intensa. Mulheres, por exemplo, chegam a abandonar trabalhos formais para se dedicar a aulas diárias com professores particulares ou em cursos intensivos. Observa-se também a preocupação em matricular os filhos em escolas internacionais antes mesmo de eles aprenderem o português. Mesmo viagens de lazer para destinos como Miami, Orlando e Nova York são, em essência, vistas como oportunidades para treinar a língua.

Essa busca incessante é enquadrada em uma “visão de mundo binária, de uma lógica orientada pela lei do contém ou não contém inglês”. Aqueles que “têm” o inglês são percebidos como chiques e pertencentes às altas rodas, enquanto os que “não têm” são considerados fora desse jogo. Um exemplo vívido é a experiência de um casal no aeroporto de Miami. A dificuldade deles com a língua, apesar da mulher se esforçar para usar o vocabulário recém-aprendido, levou-os à “salinha de averiguações” e a uma grande frustração.

O tempo necessário para adquirir fluência é um grande desafio. Segundo o Common European Framework of Reference for Languages (CEFR), são necessárias mais de 1200 horas de estudo para atingir a fluência. Com um curso intensivo de duas horas diárias, cinco vezes por semana, o processo levaria mais de dois anos — “tempo demais” para quem almeja uma rápida inserção social. Para acelerar esse aprendizado, os emergentes não hesitam: viajam frequentemente, são atormentados pelas vozes das gravações cobrando frases prontas, e assistem a filmes de Hollywood no idioma nativo mesmo que não entendam nada. A prática de misturar inglês e português em frases como Hey, darling. Bom dia! How are you? ilustra essa condição de estar “no entre” dois mundos. Michel ainda descreve a tensão da mulher antes do voo para Miami como uma prova do quanto o investimento de tempo e dinheiro nas aulas tinham lhe dado o estofo para enfrentar a vida cotidiana no país estrangeiro.

A baixa proficiência em inglês no Brasil, onde apenas 5% da população o domina e somente 1% possui fluência plena para uso profissional ou conversacional, reforça o valor de exclusividade desse conhecimento. Situações como a dificuldade de um morador em pronunciar o nome de seu condomínio, Golden Green, que ele chamava de “Goldi Gri”, ou o episódio com amigas que, em meio ao desespero por uma unha postiça perdida, gritavam vocabulário em inglês e se corrigiam mutuamente, incluindo a observação de que “Google it!” não se aplicava à “vida real”, demonstram os desafios e as peculiaridades dessa busca.

O inglês como componente da identidade “postiça”

O empenho em dominar o inglês e a capacidade de utilizá-lo são parte de uma engenharia de transformação vivida pelos novos-ricos para enfrentar a batalha por reconhecimento. Assim como elementos como unhas postiças, mega hair, lentes de contato e cirurgias plásticas são usados para compor uma nova aparência, o domínio do inglês se integra a uma identidade “postiça”, um “novo self” cuidadosamente construído para transitar nos salões da riqueza.

Para os ricos tradicionais, embora a fluência em línguas estrangeiras e o trânsito internacional sejam esperados, como no caso de ricos “desde sempre”, que falam muitas línguas, o inglês não é necessariamente um ponto de virada ou um sinal de ascensão. Em vez disso, é uma característica inerente ao seu berço e à sua formação educacional, frequentemente adquirida desde a infância. A menção da ricaça tradicional sobre a tutora suíça de suas filhas, especializada em receber filhos de executivos internacionais, sugere que o aprendizado de idiomas é uma expectativa natural, e não uma batalha ou obsessão como para os novos-ricos.

Em suma, a língua inglesa no contexto das elites brasileiras, especialmente entre os emergentes, transcende sua função comunicativa para se tornar um capital simbólico de valor inestimável. É um investimento, uma demonstração de esforço e uma ferramenta essencial para demarcar a diferença e consolidar o pertencimento às altas rodas. Não se trata apenas de falar inglês, mas de performar a identidade que o inglês (ou sua busca) confere, mesmo que isso implique uma vida “no entre” dois mundos.

Aprender inglês revela-se um fator crucial para a distinção social e ascensão no universo da elite brasileira. Para os emergentes, ou novos-ricos, a fluência na língua é um marco inicial que os qualifica como “chiques” e “integrantes das altas rodas”, enquanto a ausência dessa habilidade os mantém “fora do jogo”. Essa busca incessante pelo domínio do inglês faz parte do seu “tempo transformador”, impulsionando-os a investir em aulas diárias. A relevância desse domínio é reforçada pelo fato de que apenas uma pequena parcela da população brasileira possui proficiência, tornando-a uma coisa para poucos e, portanto, altamente valorizada.

A proficiência em inglês é um componente implícito e esperado de um estilo de vida globalizado e de seu habitus, transmitido por gerações. Para aqueles que não são ricos, mas desejam performar riqueza para serem aceitos, a formação de redes de contato globais, nas quais o inglês é central, tornam-se indispensáveis para navegar e serem reconhecidos nesses círculos. Dessa forma, o inglês funciona como uma “coisa de rico”, uma espécie de catapulta que permite o acesso a espaços privilegiados e valida a posição social desejada, sendo fundamental na complexa operação da diferença brasileira.

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