A dieta do cadeado

Ou: Por que a força de vontade é uma mentira deslavada

Por Cláudia Catherine

Havia uma historinha infantil que eu lia para meu filho quando ele era pequeno, na época em que minha maior preocupação era tirar mancha de caneta do sofá e não a taxa de colesterol. A história era de dois amigos, o Sapo e a Rã.

Numa das aventuras, o Sapo faz uma fornada de biscoitos amanteigados. Eles comem um. Comem dois. Comem dez. Estão deliciosos.

— Precisamos parar de comer — diz o Sapo, com a boca cheia de farelo. — Vamos ficar doentes. — Você tem razão — diz a Rã, pegando mais um. — Precisamos de força de vontade. — O que é isso? — Força de vontade é tentar com muita força não fazer algo que você quer muito fazer.

Meu filho ria. Eu ria. Mas era um riso nervoso. Porque eu sabia, e o Sapo sabia, que a tal da força de vontade é a maior lenda urbana que já inventaram, ganhando até da “loira do banheiro” e do “ônibus vazio na Avenida Brasil às 18h”.

Estamos naquela época do ano pós-Natal / pré-Carnaval. A época em que o Rio de Janeiro vira uma vitrine de corpos esculturais e a gente, meros mortais, promete que “agora vai”.

A gente faz a resolução de Ano Novo: “Vou cortar o açúcar”. “Vou correr na orla todo dia”. “Não vou mais ligar pro ex”.

Aí chega fevereiro e a gente tá comendo churros no calçadão, com o celular na mão esperando mensagem dele, sedentária e feliz.

A culpa é nossa? Não, minha gente. A culpa é do conceito.

Li um estudo de psicologia comportamental (porque eu adoro achar uma desculpa científica para os meus fracassos) que diz o seguinte: “força de vontade não funciona”.

A gente acha que as pessoas magras, ricas e organizadas têm um “músculo” da vontade mais forte que o nosso. Que a musa fitness olha para o brigadeiro e diz “Não!” com a firmeza de um general.

Mentira.

O estudo diz que as pessoas disciplinadas não resistem à tentação. Elas fogem dela. Elas usam o que os cientistas chamam de “agência situacional”.

No bom carioquês: elas armam o esquema para não cair em tentação.

Vejam o caso de um escritor famoso que se mudou para Paris só para parar de fumar maconha. Ele disse que em Nova York o traficante entregava na porta em 20 minutos. Em Paris, ele não sabia pedir nem baguete, quem dirá droga.

Ou seja: ele não teve força de vontade. Ele teve geografia.

A Jennifer Lopez diz que só se mantém hidratada e saudável porque anda com uma garrafa d’água e um pote de frutas para todo lado. Se ela dependesse da vontade, ia parar na primeira lanchonete e pedir uma coxinha oleosa igual a gente.

Eu comecei a aplicar isso na minha vida aqui no Rio e, olha, é libertador.

O problema do celular, por exemplo. O celular é o cigarro do século 21. A gente quer parar de olhar, mas o tal do “scroll infinito” é o Doritos digital: você come um e quando vê, comeu o pacote todo.

Eu tentava: “Não vou olhar o Instagram”. Dois minutos depois, meu dedo estava lá, deslizando sozinho.

A solução “agência situacional”? Quando eu preciso escrever, eu jogo o celular em cima do armário da cozinha. Se eu quiser ver a notificação, tenho que pegar a escada. A minha preguiça de pegar a escada é maior que a minha curiosidade.

Pronto. Venci o vício pelo cansaço.

Outro exemplo: a academia.

Tem um atleta olímpico que diz que o segredo dele é deixar o tênis, a roupa e a meia prontos na porta de casa na noite anterior.

Eu fui além. Eu durmo com a roupa da academia.

Sim, é ridículo. Acordo de legging e top. Mas aí eu penso: “Pô, já tô vestida. O trabalho de tirar isso pra botar uma roupa normal é maior do que o trabalho de descer e andar 30 minutos na esteira”.

É a engenharia da preguiça a favor da saúde.

Nós vivemos num mundo ultraprocessado. O supermercado é desenhado para a gente comprar porcaria. O algoritmo do TikTok é desenhado para prender nossa atenção. Tentar vencer isso na base do “eu sou forte” é burrice. É como tentar segurar um tsunami com um guarda-chuva.

Você não precisa ser forte. Você só precisa ser esperta.

Se você não quer comer chocolate, não tenha chocolate em casa. “Ah, mas é para as visitas”. Que visitas, minha filha? A única visita que aparece na sua cozinha às duas da manhã é você mesma, de pijama, procurando glicose.

Se não tiver o chocolate, você vai ter que se vestir, descer o elevador, ir até a loja de conveniência. A preguiça vai te salvar. Você vai comer uma maçã e voltar pra cama xingando. Mas magra.

Voltando à história do Sapo e da Rã.

Eles tentam usar a força de vontade para parar de comer os biscoitos. Colocam no pote. Depois no alto da estante. Depois, amarram o pote.

Mas eles sabem que podem pegar a escada, desamarrar e comer. A vontade vence a barreira.

Qual a solução final deles?

Eles pegam o pote, vão até o jardim e jogam os biscoitos para os pássaros.

— Ei, passarinhos! — grita o Sapo. — Biscoitos grátis!

Os pássaros vêm, pegam tudo e vão embora.

— Agora não temos mais nenhum biscoito — diz a Rã, triste. — Sim — diz o Sapo. — Mas temos muita força de vontade.

É isso. A única maneira de ter força de vontade é não precisar usá-la.

Então, faça como o Sapo. Jogue o bolo para os pombos da praça. Dê o sorvete para o porteiro. Tranque o cartão de crédito no cofre e engula a chave.

Pode ser que você se sinta um pouco ridícula. Mas, acredite, é melhor ser ridícula e saudável do que ser uma mulher “forte” com a boca suja de farelo.