Feliz nada novo

Por Cláudia Catherine

Hoje é dia 31 de dezembro. E o Rio de Janeiro, vejam vocês, entrou naquele estado de demência coletiva pré-Réveillon que só quem mora aqui entende (ou sofre).

O trânsito na Lagoa está um estacionamento a céu aberto. O bacalhau no supermercado está custando o preço de um rim (e olha que rim anda valorizado no mercado clandestino). E o povo? Todo mundo de branco. Uma imensa seita dedicada ao deus do Espumante Morno.

Eu olho para essa agitação toda e sinto uma coisa que a juventude (sempre ela, usando termos em inglês) chama de JOMO. Joy of Missing Out. Em bom carioquês: a delícia de estar por fora de tudo.

Antigamente (e bota antigamente nisso) eu era a rainha do agito. Já passei virada em festa no Joá com vestido de paetê que pinicava até a alma (saí de lá parecendo que tinha tido um ataque de sarna). Já peguei seis horas de engarrafamento para Búzios que durou mais que o próprio feriado. Já fiz a clássica “maratona das sete ondas” em Copacabana, saindo da água com areia até nos pensamentos e a sensação de que o ano novo ia ser incrível só porque eu fiz um exercício aeróbico hidromarinho à meia-noite.

Este ano? Este ano eu declarei greve.

O Réveillon, vamos combinar, é a “hora do amador”. É o dia em que quem não bebe resolve encher a cara; quem é da paz resolve sair no soco por causa de um balde de gelo; e quem nunca pegou num volante resolve que a Avenida Atlântica é o lugar ideal para testar seus dotes de piloto.

O mundo anda meio doido, as notícias estão pesadas e, cá entre nós, nada nunca sai como o planejado. Por isso, minha única resolução para 2026 é não ter resolução nenhuma. Sem metas. Sem cobranças. Sem aquela planilha de Excel emocional que a gente faz e abandona no dia 15 de janeiro.

Não preciso de uma data no calendário para tentar ser uma pessoa melhor. Eu já tento isso diariamente (e falho miseravelmente em várias vezes, mas a intenção é o que vale). Para mim, dia primeiro é só uma segunda-feira. E das bravas.

A gente coloca uma pressão desumana no dia 31. Como se, à meia-noite, um portal mágico se abrisse e todas as nossas dívidas, celulites e problemas de caráter fossem sugados pelo vácuo cósmico. Spoiler: não são. Você acorda no dia primeiro com as mesmas dívidas, as mesmas celulites e, de brinde, uma ressaca de espumante.

A verdade é que, conforme a gente envelhece “com graça” (esse termo que inventaram para não dizer que a gente tá ficando ranzinza), aglomerar em aeroporto e festa de dez mil pessoas perdem o encanto. Entre dez mil pessoas e o meu sofá, o sofá ganha de goleada.

Hoje, quando der meia-noite, eu não estarei pulando ondas. Não estarei comendo lentilha para atrair dinheiro, até porque, se lentilha desse dinheiro, o dono do restaurante natural ali da esquina estaria na lista da Forbes e não servindo suco de clorofila. Não vou abraçar desconhecidos suados e gritar “Feliz Ano Novo” com hálito de quem bebeu sidra quente.

Eu vou estar de pijama. Mas um pijama de algodão bom, daqueles que não apertam em lugar nenhum, nem na cintura, nem na alma. Vou estar na minha cama, talvez lendo um livro, talvez vendo um filme que já vi dez vezes (e vou ver a décima primeira com a mesma cara de surpresa). Vou ouvir os fogos lá longe, como se fossem trovões de uma tempestade que não me atinge.

Dizem que o Réveillon é sobre esperança. Eu acho que é sobre aceitação. E eu aceito de braços abertos que a minha melhor versão de ano novo é aquela em que eu não preciso provar para ninguém, nem para mim mesma, que estou me divertindo horrores.

A paz, minhas pessoas, é o melhor acessório para qualquer festa. Mesmo que a festa seja composta apenas por você, o travesseiro e o silêncio de quem não deve nada para o calendário.

Feliz nada novo para todos nós.

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